terça-feira, 2 de novembro de 2021

Do Halloween

No dia 31 de outubro, no tempo da minha avó, as pessoas passavam a noite no cemitério, a garantir que as luzes das campas se mantinham vivas até ao amanhecer – iniciando, desta forma, a celebração do dia de todos os Santos.

No meu tempo já ninguém dormia no cemitério – aliás, estas histórias que a minha avó contava eram do mais parecido com filmes de terror reais: arrepiava-me toda só de pensar que alguém passava a noite entre os mortos.

Na minha juventude começou-se a ouvir falar do Halloween – nas aulas de inglês e nos desenhos animados. E recordo o dia em que, com o meu irmão, pegamos numa chila (a minha tia não nos deixou estragar nenhuma abóbora), lhe moldámos uns olhos, um nariz e uma boca e a colocamos no estradão debaixo de nossa casa (na parte mais escura), com uma vela acesa dentro. Boooo. Que medo! Consta que um dos nossos vizinhos ao passar na moto se borrou de medo.

Hoje em dia os miúdos vivem o Halloween como se toda a vida tivesse feito parte da nossa tradição. É um dos efeitos da globalização. Já nada é próprio. Tudo é de todos e perdem-se as raízes – convenhamos que é mais fácil aderir às celebrações do Halloween do que passar a noite no cemitério!

Vai daí, o meu pequeno príncipe andava em pulgas pela chegada do dia das bruxas.

Os fatos de anos passadas já não lhe servem pelo que este ano recebeu um de “dinossauro esqueleto”. Devo esclarecer que a escolha da indumentária teve que tomar em linha de conta o facto do meu pequenote ter medo dos disfarces mais horrendos. Aliás, no sábado fomos passear o Mickey e ele insistiu para passarmos frente a uma casa super decorada, com caveiras, abóboras, esqueletos, bruxas e até um Chucky! Conclusão: à noite não conseguiu dormir sozinho porque aquelas imagens não lhe saíam da cabeça.

Voltando aos festejos, no sábado foi dia de recortar a abóbora. O meu filho é muito bom nos trabalhos de equipa: ele escolheu a forma e a mãe fez o resto. Já me devo dar por feliz que não criticou a obra e ainda achou que ficou bem bonita. Eu também achei!

No domingo, embora a reunião familiar fosse para celebrar o aniversário da madrinha (que faz anos a 30), o dia ficou marcado pela euforia do Halloween. Com os primos vestiram-se e pintaram-se a rigor (tenho dotes escondidos que se revelam de acordo com as necessidades) e passaram o dia a ansiar o escurecer para irem tocar às portas da vizinhança.
As restrições que ainda marcam estes tempos limitaram a incursão a 5 casas, mas se só nestas encheram 3 sacos de doces e receberam 20 €, não sei o que seria se dessem a volta à localidade. Divertiram-se imenso e comeram muitas porcarias. Um dia pleno, portanto.

Da minha parte, que não aprecio por aí além o Halloween só tenho uma coisa a dizer: estou pronta para começar nos filmes de Natal. E nas músicas de Natal. E nas bolachas de Natal. E nas decorações de Natal. 😊

Ah! Para que conste: o meu filho dizia-me ontem que o Halloween é a sua terceira festa favorita. O seu aniversário está em segundo lugar. Em primeiro chega quem? Pois claro! O Natal! 😄

A três é que é bom!



sexta-feira, 29 de outubro de 2021

Da esperança

Embora me repita a mim mesma, todos os dias, que os cabelos brancos que se atropelam na minha cabeça vão valer o seu sacrifício no futuro, há alturas em que me pergunto se realmente colherei os frutos do que ando a semear.

Será que o meu filho ouve o que lhe dizemos e compreende que só queremos o melhor para a sua vida? Será que lhe fica alguma coisa das lavagens cerebrais diárias? Da expurgação que tentamos fazer dos maus vícios a que está tão irremediavelmente exposto?

Ontem à noite senti que sim. Acreditei que se tornará um ser humano de valor, não apenas porque é uma criança doce e meiga, com um coração bom mas também, indubitavelmente, graças ao nosso acompanhamento, empenho e dedicação.

Estávamos a jantar e já não sei como, falámos do papel dos pais na vida dos filhos e do quanto certas medidas que são vistas por estes como malévolas, visam apenas protegê-los das atrocidades do mundo.

O papa dizia: quando tiveres os teus filhos vais perceber que tiveste (e tens) pais espetaculares. Inicialmente o meu pequeno príncipe repetiu o que já nos tinha dito várias vezes: eu não vou ter filhos. No entanto, e reponderada a hipótese de os ter, afirmou que faria com eles o que nós fazemos consigo: controlar os conteúdos que vê na televisão, para que não cresçam com o “cérebro roto”.

Explicou-nos que se apanhasse os seus herdeiros a prevaricar (o exemplo que nos falou foi: a ver o Naruto) que os punha 3 meses de castigo, com a obrigação de aprender a história de Portugal num ano.

É um castigo bastante curioso, este de aprender história. E severo, o da proibição de ver ecrãs durante tanto tempo. Nunca lhe impusemos mais do que uma semana de detox. É caso para dizer que o aprendiz supera o mestre.

Desta conversa retiro que o meu pequenote compreende perfeitamente que as limitações que impomos à sua vida são para o proteger e que são das maiores provas de amor que lhe poderíamos dar.

A três é que é bom!



quinta-feira, 28 de outubro de 2021

Do que a natureza nos dá

Uma das coisas que não consigo fazer durante a semana, e que lamento, é caminhar. Embora vá a pé levar o meu príncipe à escola e faça pequenos trajetos na hora do almoço, são pouco mais do que meia dúzia de metros e não chega para ser qualificado como caminhada.  Tem dias que os passos efetuados não bastam para que não seja classificada como uma pessoa sedentária.

Por conseguinte, ao fim de semana temos de compensar.

A tarefa “ir passear o Mickey” tem, portanto, um significado muito mais abrangente que o simples facto de levar o cão à rua. É claro que todos os dias sai: de manhã vai connosco à escola; à tarde vai buscar o dono ao acolhimento; e à noite dá mais um giro. Mas ao sábado e domingo prevemos sempre um grande passeio, para que possa esticar as pernas – ele e eu também.  

O papa nem sempre nos acompanha – ocupado a cumprir outras lides – mas o pequeno príncipe não tem escapatória.

Já contei que refila e reclama e faz todo um cinema para sair, convencido que, se ficasse em casa, poderia alapar o cu no sofá a ver televisão. Mas não lhe serve de nada. “O cão é teu, tens de te ocupar dele” –  frase que uso invariavelmente, para lhe incutir o sentido da responsabilidade.

Portanto, obrigado a sair, uma parte do trajeto – quando não todo – é passada a barafustar. Porque isto, porque aquilo, patati, patata.

Embora na esmagadora maioria as nossas saídas acabem por ser, finalmente, extremadamente agradáveis e gratificantes, é cansativo ouvir a mesma ladainha, como um disco riscado. Por isso, tento distraí-lo das barbaridades que diz, arrastando a conversa para outro assunto que não seja o “passear” e mostrando-lhe as coisas singulares que cruzamos no caminho. Procuro chamar a sua atenção para detalhes na paisagem, as cores, os sons, as obras de arte que a natureza cria, sem a mão do homem.

Nos dois últimos fins de semana decidimos apanhar castanhas (daquelas que não são comestíveis) para fazer o que eu chamei “um projeto de outono”.  
E no domingo à tarde, depois de uma excursão em família pela floresta, estivemos a conceber, a 6 mãos, a nossa coroa outonal. O pequenote bem que se divertiu a perfurar, com a ajuda do papa, as castanhas com a máquina de furar.

Não tendo resultado numa coisa espetacular – porque me faltava algum material – foi elaborada num momento de partilha e isso é que é o mais importante. O tempo que passamos juntos. O tempo que dedicamos uns aos outros. O amor.

A três é que é bom!





 

segunda-feira, 25 de outubro de 2021

Dos progressos

Nem sempre fui assim.
Tempos houve em que ia com alguma regularidade à natação e cheguei a fazer aulas de hidroginástica – as últimas durante a gravidez [estas foram sessões que me deram um prazer descomunal. Uma das monitoras parecia um sargento da tropa, a puxar pela terceira idade que constituía o meu grupo. Na minha plenitude de mulher com o rei na barriga, fazia o que me apetecia, exibindo com orgulho um ventre avantajado].

Contudo, desde que tenho o meu pequenote – e que afazeres é o que não me falta – todas as desculpas são boas para me furtar a uma ida à piscina.

Porém, e quem tem filhos sabe disso, a persistência deles é à prova de bala. Chega sempre o momento em que temos de ceder. Se não para dar o exemplo – e mostrar que os pais também fazem coisas que não gostam – ao menos para lhes fazer prazer.

Conclusão: ontem foi dia de dar um mergulho!

Na verdade, o nosso filho tinha um argumento muito válido para nos querer levar à piscina: é que depois de o termos demovido do futebol, conseguimos convencê-lo das virtudes da natação (que frequenta desde meados de setembro) e ele queria muito mostrar-nos o que já sabe fazer.

Como as aulas são aos domingos de manhã – para não quebrar o ritmo de levantar cedinho todos os dias 😝– combinamos que faríamos uma hora de natação os 3, logo a seguir.

Indiscritível a alegria e boa disposição do meu menino, todo contente de nos ter ali consigo e empenhado em demonstrar os seus progressos – que são evidentes! A última vez que o tinha visto numa piscina a tentar fazer alguma coisa que se assemelhasse com nadar, fora no verão. A sua evolução foi enorme! Precisa trabalhar a respiração mas já se desenrasca bastante bem.

Mostrou-nos como sabe nadar de bruços, de costas, de crawl e até fazer de tubarão. Esta foi uma invenção sua: nada com as mãos unidas nas costas, fazendo realmente lembrar a barbatana desses “monstros” dos mares, devoradores de tudo o que mexe.

Sei que não será uma atividade a repetir com a frequência que o filhote gostaria – requer demasiada logística – mas vamos tentar ser mais assíduos. Porque o seu sorriso rasgado é sem preço.

A três é que é bom!



sexta-feira, 22 de outubro de 2021

Ich komme aus...

Quando re-cheguei ao Luxemburgo, e numa tentativa vã de valorizar o meu CV, decidi inscrever-me num curso de alemão. A formação destinava-se a adultos analfabetos na língua germânica. Ou seja: nível para principiantes.

Num ano de formação, 90 minutos por semana, além das frases elementares que nos ensinam quando aprendemos uma nova língua, decorei a seguinte máxima: “Ich spreche nach ein bisschen Deutsch” (eu já falo um pouco alemão). É mentira. Mas pelo menos essa frase não esqueci.

De entre as bases que assimilei em alemão, aprendi que quando me perguntam “de onde é que vens”, a minha resposta é “ich komme aus Portugal.”

Antes de ontem, enquanto revia os trabalhos de casa com o meu pequeno príncipe, caí numa ficha que tinha feito na escola, cuja missão era responder a algumas perguntas com vista à sua apresentação. E, curiosamente, à questão “wo kommst du?” ele respondeu “ich komme aus Pétange”.

Hum... é verdade. Quando nasceu vivíamos naquela localidade, de modo que a sua origem é, a bem dizer, ali. Mas a sua resposta soou-me estranha, esquisita!

Fez-me refletir que as nossas origens não são propriamente o sítio onde vimos a luz do dia pela primeira vez. Podem ser coincidentes, mas muitas vezes não há nada que nos ligue ao local/país do nascimento.

O meu filho pode indicar Pétange como a terra natal, mas o seu coração é todo luso. Independentemente de hoje ter duas nacionalidades, a sua génese é toda portuguesa. É um português que não vem de Portugal. Um português do mundo. 

A três é que é bom!



quarta-feira, 20 de outubro de 2021

Do estranho mundo em que vivemos

Eu não sou consumidora de televisão – no sentido abrangente, que inclui cinema, internet e plataformas de streaming. Sou quase uma espécie de info excluída, porque não acompanho (por falta de tempo e pachorra) as séries e filmes que toda a gente vê.

Não vejo, mas oiço falar.

O problema é que, não raras vezes, é o meu filho quem chega a casa a falar-me dessas novidades.

Aconteceu com a Casa de Papel -  cantarolava a “Bela Ciao” com 5 anos, porque ouvia a musica na Maison Relais (nota: o seu grupo era dos 4-6 anos).

Aconteceu com o Naruto, aos 6 anos, porque dois colegas de escola tinham “cartas” e o educador da Maison Relais os deixava ver a série do portátil.

Ainda não aconteceu com Squid Game. Ou pelo menos ele nega andar a jogar a brincadeiras violentas inspiradas em séries da Netflix. Fruto de todas as notícias que correm sobre esta nova série, o meu marido tem-no bombardeado com questionamentos e, ao que parece, ainda não se expandiu pelo seu ciclo de contactos.

Estamos de olho!

Que ele me chegue a casa a falar do Spiderman, do Pokemon e do Dragonball, eu até compreendo. São desenhos animados que ele não vê – porque considero que daí não tira nenhum proveito – mas que são mais ou menos para a sua idade.

O que eu não entendo é: como é que os outros miúdos chegaram ao conhecimento de séries para maiores de 16 ou 18 anos? Não me venham com a história de que vêm por causa dos irmãos mais velhos. Em minha casa não há irmãos mais velhos, mas há controlo parental – não apenas na aplicação, mas na presença e acompanhamento. Controlamos o que o nosso filho vê na televisão. Nunca tem acesso livre à tablete, computador ou smartphone.

Se ele aprecia as restrições? Não, não aprecia. Pede muitas vezes para ver desenhos animados sem conteúdo. Mas a resposta é inequívoca: ou vês o que é adequado para a tua idade ou apagas a televisão. Tão simples.

Nós fazemos o nosso trabalho. Outros pais não. E por culpa deles, sofrem todos. Porque na escola e no acolhimento os maus exemplos espalham-se como rastilho de pólvora.

Quase me apetece dizer: que bom que seria voltar à idade da pedra.

A três é que é bom!



segunda-feira, 18 de outubro de 2021

Da repartição de tarefas

Os nossos fins de semana estão longe de ser prazenteiros, de papo para o ar ou alapados no sofá, a desfrutar de momentos de ócio e relaxe. Não. Não são nada disso. São, até, bastantes vezes o contrário. São preenchidos de afazeres e atividades, que se não forem bem planeados, geram stress e caos.

Cada um de nós – os pais – tem definido o seu plano de trabalho, e esforçamo-nos por o cumprir. Que remédio…

Mas aparecem sempre aquelas outras tarefazinhas que não são habituais mas que precisam de ser feitas.

E o Outono (estação do ano que eu odeio – nunca vos disse, pois não?! 😝 ) é perito em acrescentar empreitadas extra na vida das pessoas. Falo da queda das folhas, naturalmente.

O nosso jardim é agraciado pelas folhas do nosso plátano (ou lá o que é aquilo) e por folhas das árvores da vizinhança, sobretudo da nogueira que pende metade para o nosso lado (e que este ano quase nem deu nozes, mas folhas não lhe faltam).

Já não me recordo das circunstâncias em que ouvi pela primeira vez esta máxima, mas que é certeira, lá isso é: onde toda a gente ajuda, nada custa.
E foi nessa premissa da colaboração e repartição de tarefas que deleguei no meu pequeno príncipe a colheita das folhas mortas do jardim. Para lhe dar a oportunidade de se fazer/sentir útil.

Não ficou entusiasmado com a missão. Protestou e tentou furtar-se à responsabilidade. Mas não teve outra opção que não fosse pegar no ancinho e acumular as folhas num montículo.

Fui observá-lo da janela. Com o Mickey a saltitar à sua volta e a espalhar as folhas empilhadas, vi o esmero e dedicação com que deitou mãos à empreitada. No final felicitei-o pelo trabalho, tendo-lhe agradecido por nos ajudar.

Mais do que o empreendimento em si, é o princípio. Perceber que as coisas não caem do céu e que sem esforço nada chega. Não só na escola mas em tudo na vida.

Isto já foi na semana passada.

Esta semana voltei a delegar-lhe a recolha das folhas mortas mas, com o apoio do pai, alegou que relva estava muito molhada e tempo muito frio. Fiteiro. Quem foi que as apanhou, quem foi?

A três é que é bom!