sexta-feira, 15 de outubro de 2021

Da desdramatização 2.0

Enquanto escrevia o post anterior dei comigo a pensar que o princípio da desdramatização me era extensível a mim mesma. A mesma linha de pensamento ocorreu aos meus dois mais fieis leitores.

Em conversas distintas com ambos dei comigo a assumir que talvez tenha exagerado um pouco na reação às palavras do meu pequeno príncipe no domingo passado.

Na altura fiquei muito magoada com o facto de me ter “escolhido” para morrer.
Mas essa dor foi extrapolada porque:
1- sei que não passo muito tempo com ele – e isso mortifica-me – pelo que a sua seleção soou-me a chapada de luva branca;
2- ultimamente só tenho coisas que me ralam;
3-  e odeio o outono, o que só por si chega para andar rabugenta e mal disposta.

Reagi como uma idiota.

E esta entrada é para mim.

Eu sei que o meu filho me ama. Ponto.

Tudo o mais são dramas e reações hormonais de mulher de meia idade a precisar de um abraço apertado. Do filho.

A três é que é bom!



quarta-feira, 13 de outubro de 2021

Da desdramatização

Quantas vezes nos queixamos de que a nossa vida é monótona e repetitiva. Todos os dias são iguais. Vemos as mesmas pessoas, passamos pelos mesmos sítios, fazemos as mesmas coisas.

E de repente alguma coisa de inesperado acontece e perturba essa tranquilidade do dia-a-dia sem história.

O proveito que tirámos dos novos acontecimentos depende muito do nosso estado de espírito e também da perspetiva pela qual nos é apresentada essa realidade.

Isto vem a propósito da passada sexta-feira.

O meu pequeno príncipe assistiu a um atropelamento.
Um jovem que atravessava a passadeira com o skate foi colhido por um carro, tendo sido propulsado no ar, embatendo no vidro, que se estilhaçou. Não deve ter sido um espetáculo bonito de ver (foi durante as aulas de canto, por isso só conheço a história na terceira pessoa) e lamento que o meu filho tenha vivenciado tal acontecimento.

Mas aquela que podia tornar-se numa experiência traumática – repetiu inúmeras vezes o que viu e senti que aquilo não lhe ia sair da cabeça facilmente –  foi aproveitada para uma chamada de atenção sobre os perigos da estrada.

Focamos constantemente a nossa abordagem no facto do rapaz ter sobrevivido – com dores, é certo! – realçando a importância de fazer muita atenção quando andamos na estrada, seja a pé, de bicicleta, trotinete ou skate.

É claro que o que viu lhe ficou gravado na alma, mas creio que a “desvalorização” do sucedido lhe permitiu que se centrasse no essencial: a vida. O menino sobreviveu.

A três é que é bom!



segunda-feira, 11 de outubro de 2021

Da feliz contemplada

Embora o meu conceito de família seja relativamente alargado – tenho família de coração que amo e me faz muito mais falta do que muita família de sangue – ontem foi dia de estar com A Família! Não todos (porque meus pais e minha tia estão longe), mas os que vivem perto de nós: o meu irmão, a esposa e os meus queridos e adorados sobrinhos/afilhados.

Se é verdade que o meu filho tem outros primos, não é menos verdade que só conhece a Leonor e o João. E com a prima tem uma relação de amor inigualável a qualquer outra. E já verão mais à frente o seu alcance.

O dia esteve soalheiro e seria um desperdício passa-lo entre quatro paredes. Por isso saímos todos de casa, rumo à floresta, com a importante missão de encontrar santieiros – uma espécie comestível de cogumelos, característica pelo chapéu e o anel.

Encontramos muitas variedades de cogumelos, que, embora possam ser comestíveis, tememos que o fossem apenas uma vez… e não arriscámos. Percorremos alguns largos metros até que o meu marido encontrou aquele que se viria a revelar único – um santieiro (dois em estado de decomposição não contam). Grande e ainda fechado, apresentava já algumas marcas de guerra. Mas nunca se desperdiça comida.

É claro que a tentativa de o fazer cheirar ao Mickey e mandá-lo encontrar mais só serviu para a gargalhada geral.

O resto do trajeto foi infrutífero na colheita de fungos mas prazeroso nos momentos partilhados. Tenho várias fotos do meu pequenote e da minha afilhada que mostram o quanto se gostam e o bom que seria se passassem mais tempo juntos.

Já perto dos carros e atendendo a que um santieiro não poderia satisfazer tanta gente, o meu filho perguntou quem o comeria. Disse-lhe que seria a prima, porque ele e o pai (quem o encontrou) não gostam e por isso ficava para ela. Diz-me ele: come-o tu. Eu? Porquê? Porque eu não quero que a Leonor morra (nota: ele tem sempre medo que os cogumelos que colhemos para comer sejam venenosos). Perguntei-lhe se então preferia que morresse eu ao que me responde “tu não brincas comigo.” Respondi-lhe dizendo que achava muito bem que não quisesse que a prima morresse mas que escolher-me a mim no seu lugar, no meio dos demais, me entristecia. Propus: ”então come o Mickey”. “Não! O Mickey não!”

A conversa ficou por aqui até termos chegado a nossa casa.

O meu marido, embora me tenha dito que me estava a vitimizar e que não deveria dar relevância ao facto de ter sido selecionada pela pessoa mais importante da minha vida para morrer, acabou por perceber que as palavras o meu filho me magoaram e aconselhou-o a vir esclarecer-se comigo. Só consegui retribuir-lhe o abraço quando pressenti a chegada da torrente de lágrimas.

Just feel like shit.

Sobre as minhas dúvidas quanto a ser uma boa mãe, parece-me que foi bastante esclarecedor.





sexta-feira, 8 de outubro de 2021

Da guerra sem tréguas

Educar uma criança é uma responsabilidade incrível. Todos os dias me questiono se estou a fazer o que é certo. E todos os mesmos dias me censuro por não ter sabido/conseguido ser aquela mãe idealizada que eu tenho em mente.

Almejo ser aquele tipo de mulher que consegue dar vazão a tudo, que está sempre sorridente e bem-disposta, que nunca grita com os filhos, que é compreensiva, meiga, presente… E não sou nada disso.

De entre todas essas coisas que não sou, o que mais me afeta ainda é ser uma mãe que passa o dia fora, que demora séculos a chegar a casa. Sofro pelo tão pouco tempo que passo com o meu pequeno príncipe.

Sofro por mim. E sofro por ele.

Eu sei que o meu filho gostaria que um dos pais tivesse mais tempo para ele, para não ter que ir para o acolhimento e poder vir para casa ver televisão. Estou bem ciente disso.
Mas não é por essa razão que eu lamento não ter mais tempo.
É porque passar tempo com ele me permitiria aproveitá-lo ao máximo e evitar-me-ia todo o trabalho extra que me exige a sua educação pelo facto de estar tanto tempo exposto a influências nefastas.

A esmagadora maioria dos miúdos de hoje é tão mal-educada – não falo de dizer palavrões (alguns também!), mas da falta de empatia, camaradagem, amizade, cumplicidade, solidariedade – que todos os dias tenho de fazer uma lavagem cerebral ao meu filho para lhe limpar a alma das crueldades/atrocidades que vê, ouve e sente.

Ontem, por exemplo, quando estávamos ambos no chuveiro para lhe dar banho, enche o peito e vira-se para mim, naquela atitude de rambo, de quem é grande e forte. Não me encostou nem pronunciou nada. Mas aquela atitude não é sua e logo perguntei: onde viste isso? Na maison relais? Os “grandes” fazem-te isso? Claro que a resposta foi a que eu já adivinhava. É empurrado, abalroado pelos miúdos mais velhos só porque sim. Disse-me que fez queixa à responsável e que esta ralhou com os malfeitores – veremos se fica por aqui.
Mas uma coisa já ficou: o mau exemplo! Por isso, lá lhe expliquei que só porque somos maiores e mais fortes isso não nos dá o direito de ameaçar ou atacar os mais pequeninos. “Eu sei mamã!” – disse ele. Eu sei que ele sabe, mas não o impediu de replicar a atitude.

Quando tanto do que nos rodeia é mau, é difícil continuar-se bom.

Sinto-me numa guerra sem tréguas. Verdadeiramente.

Mas, parafraseando aquele grande “poeta” que só quem vê novela conhece: “eu dou um boi para não entrar numa guerra, mas dou uma boiada para não sair dela!”. 

A três é que é bom!



quinta-feira, 7 de outubro de 2021

Da teimosia

Se é verdade que já me chamaram de teimosa, eu tenho muita dificuldade em encaixar a crítica, considerando-me obstinada e persistente.

Embora não me seja fácil abrir mão das ideias que tenho, reconheço em mim abertura bastante para ouvir os outros e retirar das suas opiniões uma visão para limar e melhorar as minhas.

Teimosos, no meu ponto de vista, são os homens da minha família: pai, irmão (senhores de toda a verdade, são capazes de fincar pé num ponto de vista durante horas, estando, no final, ambos errados, mas sem nunca abdicar da certeza de que estão certos) e – deve estar nos genes dos Teles – o meu filho.

O meu pequeno príncipe gosta de brincar com os limites. É incapaz de assimilar uma ordem à primeira, tentando sistematicamente adiar o inevitável.

Quando falo de ordens, são coisas tão simples como: calça-te, veste o casaco, aperta o casaco, põe a mochila direita nas costas, para de chatear o cão… São pequenas coisinhas do dia-a-dia que tenho de repetir até à exaustão. É cansativo. Extremamente cansativo.

Costumo dizer-lhe que me tira anos de vida com as pequenas casmurrices dele. Começamos, muitas vezes, o dia da pior maneira só porque está decidido a contrariar-me e a ser teimoso.

Outras vezes acontece que a sua cabeça dura lhe traz dissabores maiores. Aconteceu esta semana. Por causa da sua obstinação em não querer dar-se a oportunidade de aprender mais alemão (vendo televisão e lendo livros nessa língua), acabou a chorar com fortes razões para isso.

Naturalmente que uma coisa não justifica a outra (a teimosia não se combate com agressividade) e estou certa que toda a situação acabou por ser um aprendizado para os envolvidos.

Ser pai/mãe é, definitivamente, o papel mais difícil de desempenhar. Temos que nos melhorar todos os dias, encher-nos de empatia e paciência, controlar os ímpetos e as emoções e ser para os nossos filhos aquilo que eles mais precisam: um lugar seguro!

A três é que é bom!  



segunda-feira, 4 de outubro de 2021

Do Dia do Pai

É bastante óbvio que o dia do pai é todos os dias. Desde o momento em que sabe que há uma sementinha a germinar até à eternidade. Um pai perdura muito para além do seu último suspiro, na memória dos filhos e, se tiver tido essa felicidade, na dos netos, bisnetos… Enquanto houver memória da sua passagem na Terra, é imortal.

E não haverá maior glória do que ser lembrado como: era um pai extraordinário!

Conheço dois pais que serão lembrados dessa forma: o meu e aquele que escolhi para o meu filho. São muito diferentes mas, ao mesmo tempo, tão iguais: pais preocupados, pais presentes, pais que dão tudo pelos filhos.

E isto a propósito de ontem: aqui celebra-se o dia do Pai no primeiro domingo de outubro.

O meu pequeno príncipe, que durante a semana inteira me cochichou ao ouvido como era a prenda que andava a fazer para o papá, todo excitado e feliz, chegado o grande dia quase se esquecia. Distraído com a perspetiva do curso de natação e com os olhos postos na televisão (para devorar 5 minutos do maldito vicio antes de sair), foi preciso lembrá-lo.

Caído em si sobre a falha que cometera, ficou triste e desolado, pediu desculpas ao papa e, além dos presentes preparados na escola, congratulou-o com uma canção que ele inventou no próprio momento – de palavras doces e melodia melancólica, que quase o fez chorar. Sim, esta é uma característica do meu pequenote: chorar com as letras das músicas que inventa. Alma de artista sentimental.

Finalizaram num abraço apertado!

Gosto tanto de os ver agarradinhos e cúmplices. Ligados por um amor incomensurável.

A três é que é bom!



quinta-feira, 30 de setembro de 2021

Da presunção

Eu gosto de escrever.

Nem sempre aprecio o que escrevo. Não tanto pelo conteúdo (porque não conto mentiras), mas pela forma, pela abordagem, pelo excesso de detalhes ou pela falta deles. Não obstante escrevo.

E escrever desanuvia-me.

Portanto, a ideia de criar um blog sobre a vida a três nasceu não apenas porque tenho uma memória seletiva (e no blog fica gravado para a posteridade) mas também pelo prazer pessoal de narrar histórias.

Está bem claro que não tenho um ranking de visualizações e que não criei esta página para ganhar dinheiro – não há nem haverá publicidade associada!  

Não obstante, gostava de ter mais retornos. E ontem queixava-me ao meu marido precisamente disso – disse-lhe que gostaria de saber se há quem me leia e o que acham (tata, eu sei que tu lês!).

Neste ponto, respondeu-me com a altivez e a suma convicção de que tal deveria ser-me suficiente: eu leio!
Uau! A sério? E quê? Devo ser-te grata e reconhecida porque tu lês um blog que fala sobre a nossa família? Mau seria que não lesses, digo eu com os nervos.

Achei extremamente presunçoso e arrogante.

É seu hábito achar que desvalorizo a sua opinião só porque quero saber a dos demais. Mas está enganado. Não desvalorizo. Mas relativizo. Como parte interessada e conhecedora dos factos, não tem uma opinião isenta.

É perfeitamente legítimo querer ocupar os lugares de topo na vida dos que nos são queridos, mas assumir que se é suficiente, é excessivo. Menos, menos.

Como prometido, esta entrada é mesmo só para ti, marido querido.

A propósito: agora percebo a quem sai o meu pequeno príncipe quando se acha o Cristiano Ronaldo lá da escola. Deve ter passado nos genes.

A três é que é bom!