segunda-feira, 4 de outubro de 2021

Do Dia do Pai

É bastante óbvio que o dia do pai é todos os dias. Desde o momento em que sabe que há uma sementinha a germinar até à eternidade. Um pai perdura muito para além do seu último suspiro, na memória dos filhos e, se tiver tido essa felicidade, na dos netos, bisnetos… Enquanto houver memória da sua passagem na Terra, é imortal.

E não haverá maior glória do que ser lembrado como: era um pai extraordinário!

Conheço dois pais que serão lembrados dessa forma: o meu e aquele que escolhi para o meu filho. São muito diferentes mas, ao mesmo tempo, tão iguais: pais preocupados, pais presentes, pais que dão tudo pelos filhos.

E isto a propósito de ontem: aqui celebra-se o dia do Pai no primeiro domingo de outubro.

O meu pequeno príncipe, que durante a semana inteira me cochichou ao ouvido como era a prenda que andava a fazer para o papá, todo excitado e feliz, chegado o grande dia quase se esquecia. Distraído com a perspetiva do curso de natação e com os olhos postos na televisão (para devorar 5 minutos do maldito vicio antes de sair), foi preciso lembrá-lo.

Caído em si sobre a falha que cometera, ficou triste e desolado, pediu desculpas ao papa e, além dos presentes preparados na escola, congratulou-o com uma canção que ele inventou no próprio momento – de palavras doces e melodia melancólica, que quase o fez chorar. Sim, esta é uma característica do meu pequenote: chorar com as letras das músicas que inventa. Alma de artista sentimental.

Finalizaram num abraço apertado!

Gosto tanto de os ver agarradinhos e cúmplices. Ligados por um amor incomensurável.

A três é que é bom!



quinta-feira, 30 de setembro de 2021

Da presunção

Eu gosto de escrever.

Nem sempre aprecio o que escrevo. Não tanto pelo conteúdo (porque não conto mentiras), mas pela forma, pela abordagem, pelo excesso de detalhes ou pela falta deles. Não obstante escrevo.

E escrever desanuvia-me.

Portanto, a ideia de criar um blog sobre a vida a três nasceu não apenas porque tenho uma memória seletiva (e no blog fica gravado para a posteridade) mas também pelo prazer pessoal de narrar histórias.

Está bem claro que não tenho um ranking de visualizações e que não criei esta página para ganhar dinheiro – não há nem haverá publicidade associada!  

Não obstante, gostava de ter mais retornos. E ontem queixava-me ao meu marido precisamente disso – disse-lhe que gostaria de saber se há quem me leia e o que acham (tata, eu sei que tu lês!).

Neste ponto, respondeu-me com a altivez e a suma convicção de que tal deveria ser-me suficiente: eu leio!
Uau! A sério? E quê? Devo ser-te grata e reconhecida porque tu lês um blog que fala sobre a nossa família? Mau seria que não lesses, digo eu com os nervos.

Achei extremamente presunçoso e arrogante.

É seu hábito achar que desvalorizo a sua opinião só porque quero saber a dos demais. Mas está enganado. Não desvalorizo. Mas relativizo. Como parte interessada e conhecedora dos factos, não tem uma opinião isenta.

É perfeitamente legítimo querer ocupar os lugares de topo na vida dos que nos são queridos, mas assumir que se é suficiente, é excessivo. Menos, menos.

Como prometido, esta entrada é mesmo só para ti, marido querido.

A propósito: agora percebo a quem sai o meu pequeno príncipe quando se acha o Cristiano Ronaldo lá da escola. Deve ter passado nos genes.

A três é que é bom!



quarta-feira, 29 de setembro de 2021

Dos doces momentos

A vida é feita de momentos grandiosos dos quais guardamos milhões de fotos, de vídeos e de memórias. Recordamos com um suspiro a última ceia de Natal, as últimas férias, o último encontro com aqueles que amamos.

E nesta ânsia das ocasiões empolgantes, acabámos por passar ao lado de uma série de pequenos acontecimentos que, sem serem especialmente vistosos, quando nos focamos neles reconfortam o dia a dia e amparam-nos numa existência que nem sempre corresponde às nossas expectativas.

Ontem, enquanto lavava minuciosamente as tronchudas que os meus pais nos enviaram (porque são, dizem eles, biológicas e inigualáveis a quaisquer outras que pudéssemos comprar no supermercado), o meu filho veio colocar-se ao meu lado para jogarmos a uma espécie de quiz.

As perguntas estão plasmadas nas pequenas cartas que anda a colecionar (sua mais recente obsessão), incidindo, grosso modo, sobre agricultura e produtos locais.

Já não sei se respondi corretamente ou não às 2/3 primeiras perguntas, mas sei que a partir de uma altura ele me veio repenicar um beijo na bochecha porque eu tinha acertado na resposta. Perguntei se era o meu prémio por ter respondido corretamente e ele assentiu. Não podia devolver o beijo, apenas recebê-lo.

Não consigo imaginar recompensa mais gratificante!

Felizmente para mim que as perguntas não eram complicadas, pois jamais me perdoaria de perder uma oportunidade daquelas de receber, assim, espontaneamente, tantos beijinhos do meu pequeno príncipe.
Sim, que do alto dos seus 8 anos, dar beijos à mãe não é quando ela quer, é quando ele decide que lhe apetece e que ela merece.

O papa, que consegue ser pior do que eu nesta cata ao carinho, veio sorrateiramente encaixar-se no jogo e juntos partilhamos um momentinho delicioso que, sem ser estrondoso, conseguiu fazer transbordar os nossos corações de amor.

A três é que é bom!




segunda-feira, 27 de setembro de 2021

Das noites de sexta-feira

Desenganem-se os que acham que vou debitar sobre saídas ao restaurante, idas ao cinema ou programas pela noite fora. Nada disso. Longe vão os tempos em que havia oportunidade (e até vontade) para isso. Se a maternidade aniquilou a disponibilidade que gozávamos quando não tínhamos o nosso filho, a pandemia acabou por reduzir a zero o desejo de sair.

Por conseguinte, as nossas noites de sexta-feira (à semelhança das demais) são caseirinhas. Mas isso não significa que não sejam especiais.

Passo a explicar.

Ainda no decurso do primeiro trimestre do ano letivo passado, e por forma a incentivar o meu filho a comportar-se bem na escola (o que não sucedera regularmente no ano precedente), o meu marido disse-lhe que todas as vezes que ficasse toda a semana no sol – a avaliação diária do comportamento regia-se pelo estado do tempo, começando sempre no sol e decrescendo até à trovoada, com a nuvem e a chuva pelo caminho – poderia dormir connosco na nossa cama.

O pequeno príncipe, que pedia muitas vezes para partilhar os nossos lençóis, viu naquela abertura a possibilidade de realizar o seu desejo e, fosse pela perspetiva de sexta-feira à noite ou porque aprendeu a comportar-se bem, as semanas de sol multiplicaram-se – com as sequentes noites a três.

Durante o período de férias fez do seu melhor para merecer o seu lugar no nosso meio e, neste recomeço escolar, exigiu a manutenção do acordo.

Ora bem. Eu confesso que por diversas vezes acusei o meu marido de se ter precipitado com esta história das sextas à noite e ter assumido um compromisso que nos afeta a todos, sem pensar nas consequências: o meu pequenote é atravessado a dormir e sendo o sábado o dia da faxina, ninguém naquela casa acorda com grande disposição.

Ninguém não. Minto. O meu filho está sempre contente de ter passado a noite com os pais.

E de repente dei comigo a pensar: durante quanto tempo mais é que ele vai querer dormir no nosso quarto? Durante quanto tempo mais vai correr para a nossa cama quando acorda sobressaltado com pesadelos?

Senti um aperto no peito ao perceber que não será durante muito mais tempo. E, de um dia para o outro, dormir com o meu filho abraçadinho a mim, com os seus cabelos a entrar-me nas narinas, as pernas atravessadas sobre o meu corpo, as cotoveladas certeiras nos olhos… passaram a constituir momentos sagrados que quero desfrutar para a eternidade.

A três é que é bom!




sexta-feira, 24 de setembro de 2021

Dos desaforos

No meu dia a dia desempenho imensas profissões. De uma recebo o salário, de outras louvores e agradecimentos. Da mais exigente de todas recebo de tudo: beijos, abraços, carinho, gratidão e muitos desaforos. Refiro-me, naturalmente, ao meu papel de mãe.

Não há manuais a explicar o funcionamento dos filhos, tal como não existem livros que expliquem como se faz uma boa mãe.

Acho que é uma carreira que se constrói em conjunto, com avanços e recuos, adaptações e atualizações. Requer muita paciência, muita compreensão, resiliência e, acima de tudo, amor, doses extra de amor.

É um caminho para a vida, sem nunca chegar à meta.

Eu não tenho qualquer dúvida de que sou muito importante na vida do meu filho e de que perderia o norte sem mim. No entanto, custa-me entender como consegue, em determinadas ocasiões, ser cruel ao ponto de me dizer: eu não gosto de ti! E pior: eu odeio-te!
Bem sei que são desaforos e a maneira dele de descarregar raivas acumuladas – muitas vezes noutros contextos, que nada tem que ver comigo e/ou com as nossas “discussões”. Não fico magoada nem rancorosa, embora me sinta triste – não tanto pelas palavras (que sei que são mentira) mas pela intenção. Como é que é capaz de querer magoar-me?

Eu costumo dizer-lhe: se tu dizes que me odeias é sinal que estou a desempenhar bem o meu papel de mãe. E tenho a certeza de que ao colocar-lhe limites estou, de facto, a fazer o que é certo.

Esta manhã fui presenteada com um “não me chateies”, só porque lhe dizia para vestir o casaco em condições e colocar a mochila direita às costas.
Má educação e arrogância não são bem-vindas na nossa casa pelo que apenas lhe respondi: “se é isso que tu queres, é o que vais ter”. Para bom entendedor, meia palavra basta. Não precisei esclarecer o alcance que queria que deduzisse das minhas palavras (que, obviamente, jamais seria capaz de levar a cabo) e logo me pediu desculpa, mudando de tom.

Errar é humano. Nem sempre fazemos o certo. Reconhecer as nossas falhas e saber pedir desculpa é uma virtude que poucos têm.

Tanto orgulho que tenho neste meu filho! E um amor incomensurável.

A três é que é bom!



quarta-feira, 22 de setembro de 2021

Do retorno às rotinas e aos TPC

Se é verdade que sair da rotina faz bem a toda a gente – para desanuviar, espraiar, quebrar as regras (um bocadinho) – em tempos de escola é fundamental manter uma rotina bem equilibrada, definindo com clareza os diferentes momentos do dia.

Não é permitido saltar refeições. Não é possível ir para a cama tarde. É impensável não fazer – corretamente! – os trabalhos de casa.  

Neste regresso à escola, estamos, ainda, a tentar encontrar o meio termo entre o trabalho e o lazer.
Mas os trabalhos já estão a dar que falar...

Nos anos precedentes o meu pequenote trazia várias vezes deveres para fazer em casa. No entanto, além de não serem muitas, as tarefas estavam sempre devidamente identificadas. Era tudo muito claro e objetivo, escrito no journal de classe.

Por causa deste hábito, não me surpreendeu que na segunda-feira me dissesse que não tinha TPC. Como o professor não indicou nenhuma atividade nem mandou escrever no jornal diário, é porque não havia.

Ciente de que nem tudo é preto e branco e que muito se escreve nos cinzentos – e até porque, contrariamente aos primeiros dias, trouxe material na mochila – debrucei-me sobre as suas coisinhas e lá encontrei o plano semanal. Este indica as atividades a desenvolver durante toda a semana, sem distinguir onde, quando e como. Contudo, um dos exercícios de matemática dizia que era para fazer diariamente e um de francês indicava que seria para recortar para terça-feira (ou seja: para o dia seguinte) – entre outros, identificando diferentes dias da semana.
Foi-me difícil convencer o rebento de que aqueles eram trabalhos para fazer em casa – só tendo acedido quando lhe disse: “se o professor ralhar contigo porque fizeste, diz-lhe que eu te obriguei.” Descartadas as responsabilidades da suposta desobediência, mas ainda assim contrariado, lá os fez.

Resultado: foi dos poucos miúdos que fez os trabalhos. E do professor levaram uma descascadela, dizendo-lhes que já não são nenhuns meninos pequenos a quem é preciso explicar tudo.

Ora bem, aqui que meu filho não me ouve, será que custava muito alertar os alunos para novas regras? Assinalar que há atividades que têm de preparar em casa? Não acredito que o tenha feito, pois caso contrário não seriam vários os que não fizeram os trabalhos (sim, ainda me ocorreu que meu pequenote estivesse distraído e não ouvisse…).

Presumo que esta ansiedade seja relativamente comum em cada recomeço. Mas confesso que a minha apreensão em relação ao novo professor não está para se dissipar…

Uma coisa é certa! Dê para onde der, vai sempre esbarrar comigo, porque eu não abro mão. O meu filho é extraordinário e não vou permitir que se perca. 

A três é que é bom!



segunda-feira, 20 de setembro de 2021

Das deduções hilariantes

Esta é uma daquelas histórias que tenho mesmo de partilhar. Não me quero esquecer que isto aconteceu. Só lamento não ter uma foto para ilustrar o momento em que quase me abafo de tentar conter o riso.

Comecemos.

Na passada sexta-feira, a caminho da escola, o meu pequeno príncipe, enquanto dava mimos ao cão, dizia-me:

- “Mamã, quando o Mickey tiver bebés, e os bebés dele tiverem bebés e depois estes tiverem bebés (sim, são muitas gerações, mas a conversa foi esta e não vou distorcê-la), eu, como vou ser veterinário, vou abrir-lhes a barriga para lhes tirar os bebés.”

Expliquei-lhe que o procedimento normal não é ter de abrir a barriga às mamãs para tirar os bebés e que a cadela deveria conseguir ter os filhos sem a operar. Só seria necessária a ingerência do veterinário se alguma coisa corresse mal.

Neste ponto, o meu pequenito lembrou-me que nascera graças à intervenção do médico que me abriu a barriga – tivemos esta conversa por causa da cicatriz da cesariana. Eu confirmei, dizendo-lhe que fora apenas porque ele não estava a conseguir sair sozinho. Tinha o cordão umbilical à volta do pescoço, o que o impediu de nascer por parto natural.

Após me ter questionado se podia ter morrido e eu lhe assegurei que esteve sempre tudo controlado e que nunca duvidei que sairíamos os dois ilesos daquele parto, o meu filho, ligando as pontas, vira-se para mim e pergunta: “e então, quando não é pela barriga, saem por onde os bebés? Pelo cu?!”

Quase me desmanchava! Ao mesmo tempo que me ocorria que nunca me tinha feito esta pergunta, vi-me obrigada a um esforço descomunal para não rir às lágrimas.

É claro que a sua interrogação tem lógica. Tem de haver a way-out para os bebés.  

Felizmente estávamos a chegar à escola e não havia tempo para muitas explicações, por isso, sucintamente disse-lhe que as senhoras têm uma saída na pombinha que é para os bebés nascerem. Não é por onde sai o xixi. É um buraco especial. E isso faz de nós, mulheres, seres tão mágicos, capazes de dar à luz. Não se pronunciou e seguiu caminho, em direção ao terceiro dia de escola.

No regresso a casa o Mickey olhou várias vezes para mim, a perguntar-se se me estava a dar alguma coisinha ruim… É que me ri tanto, tanto que as bochechas me doíam.

(Ainda não me voltou a falar do assunto – medo!).

A três é que é bom!