quarta-feira, 22 de setembro de 2021

Do retorno às rotinas e aos TPC

Se é verdade que sair da rotina faz bem a toda a gente – para desanuviar, espraiar, quebrar as regras (um bocadinho) – em tempos de escola é fundamental manter uma rotina bem equilibrada, definindo com clareza os diferentes momentos do dia.

Não é permitido saltar refeições. Não é possível ir para a cama tarde. É impensável não fazer – corretamente! – os trabalhos de casa.  

Neste regresso à escola, estamos, ainda, a tentar encontrar o meio termo entre o trabalho e o lazer.
Mas os trabalhos já estão a dar que falar...

Nos anos precedentes o meu pequenote trazia várias vezes deveres para fazer em casa. No entanto, além de não serem muitas, as tarefas estavam sempre devidamente identificadas. Era tudo muito claro e objetivo, escrito no journal de classe.

Por causa deste hábito, não me surpreendeu que na segunda-feira me dissesse que não tinha TPC. Como o professor não indicou nenhuma atividade nem mandou escrever no jornal diário, é porque não havia.

Ciente de que nem tudo é preto e branco e que muito se escreve nos cinzentos – e até porque, contrariamente aos primeiros dias, trouxe material na mochila – debrucei-me sobre as suas coisinhas e lá encontrei o plano semanal. Este indica as atividades a desenvolver durante toda a semana, sem distinguir onde, quando e como. Contudo, um dos exercícios de matemática dizia que era para fazer diariamente e um de francês indicava que seria para recortar para terça-feira (ou seja: para o dia seguinte) – entre outros, identificando diferentes dias da semana.
Foi-me difícil convencer o rebento de que aqueles eram trabalhos para fazer em casa – só tendo acedido quando lhe disse: “se o professor ralhar contigo porque fizeste, diz-lhe que eu te obriguei.” Descartadas as responsabilidades da suposta desobediência, mas ainda assim contrariado, lá os fez.

Resultado: foi dos poucos miúdos que fez os trabalhos. E do professor levaram uma descascadela, dizendo-lhes que já não são nenhuns meninos pequenos a quem é preciso explicar tudo.

Ora bem, aqui que meu filho não me ouve, será que custava muito alertar os alunos para novas regras? Assinalar que há atividades que têm de preparar em casa? Não acredito que o tenha feito, pois caso contrário não seriam vários os que não fizeram os trabalhos (sim, ainda me ocorreu que meu pequenote estivesse distraído e não ouvisse…).

Presumo que esta ansiedade seja relativamente comum em cada recomeço. Mas confesso que a minha apreensão em relação ao novo professor não está para se dissipar…

Uma coisa é certa! Dê para onde der, vai sempre esbarrar comigo, porque eu não abro mão. O meu filho é extraordinário e não vou permitir que se perca. 

A três é que é bom!



segunda-feira, 20 de setembro de 2021

Das deduções hilariantes

Esta é uma daquelas histórias que tenho mesmo de partilhar. Não me quero esquecer que isto aconteceu. Só lamento não ter uma foto para ilustrar o momento em que quase me abafo de tentar conter o riso.

Comecemos.

Na passada sexta-feira, a caminho da escola, o meu pequeno príncipe, enquanto dava mimos ao cão, dizia-me:

- “Mamã, quando o Mickey tiver bebés, e os bebés dele tiverem bebés e depois estes tiverem bebés (sim, são muitas gerações, mas a conversa foi esta e não vou distorcê-la), eu, como vou ser veterinário, vou abrir-lhes a barriga para lhes tirar os bebés.”

Expliquei-lhe que o procedimento normal não é ter de abrir a barriga às mamãs para tirar os bebés e que a cadela deveria conseguir ter os filhos sem a operar. Só seria necessária a ingerência do veterinário se alguma coisa corresse mal.

Neste ponto, o meu pequenito lembrou-me que nascera graças à intervenção do médico que me abriu a barriga – tivemos esta conversa por causa da cicatriz da cesariana. Eu confirmei, dizendo-lhe que fora apenas porque ele não estava a conseguir sair sozinho. Tinha o cordão umbilical à volta do pescoço, o que o impediu de nascer por parto natural.

Após me ter questionado se podia ter morrido e eu lhe assegurei que esteve sempre tudo controlado e que nunca duvidei que sairíamos os dois ilesos daquele parto, o meu filho, ligando as pontas, vira-se para mim e pergunta: “e então, quando não é pela barriga, saem por onde os bebés? Pelo cu?!”

Quase me desmanchava! Ao mesmo tempo que me ocorria que nunca me tinha feito esta pergunta, vi-me obrigada a um esforço descomunal para não rir às lágrimas.

É claro que a sua interrogação tem lógica. Tem de haver a way-out para os bebés.  

Felizmente estávamos a chegar à escola e não havia tempo para muitas explicações, por isso, sucintamente disse-lhe que as senhoras têm uma saída na pombinha que é para os bebés nascerem. Não é por onde sai o xixi. É um buraco especial. E isso faz de nós, mulheres, seres tão mágicos, capazes de dar à luz. Não se pronunciou e seguiu caminho, em direção ao terceiro dia de escola.

No regresso a casa o Mickey olhou várias vezes para mim, a perguntar-se se me estava a dar alguma coisinha ruim… É que me ri tanto, tanto que as bochechas me doíam.

(Ainda não me voltou a falar do assunto – medo!).

A três é que é bom!



sexta-feira, 17 de setembro de 2021

Do regresso às aulas

Embora o mês de setembro esteja longe de ser o meu favorito – marca o fim do verão, das férias, do bom tempo; as folhas começam a cair, os dias a encurtar, a melancolia a instalar-se – tem o mérito de representar um novo recomeço.
É uma espécie de janeiro, sem as festividades do ano novo (que eu dispenso), mas com as resoluções de um novo ano.

Foi com esse animo de vida nova que o meu pequeno príncipe atacou o 3º ano do ensino fundamental.

De mochila às costas, olhos brilhantes e coração apertado, foi para a escola na ânsia de começar uma nova etapa.

Ele sabia quem era o novo professor, mas ainda não sabia que seria “o melhor professor que já tive” – foi assim que o definiu quando o fui buscar para almoçar.

Que contente que fico com o entusiamo dele. Nada como um docente que cativa para que as coisas corram bem. Eu acredito nas primeiras impressões e fico a torcer para que seja, efetivamente, o melhor professor de sempre.

A mim custa-me a crer que possa superar a sua primeira professora: a Joffer Nathalie era excecional. 
Temo, na verdade, que o facto de ser um homem, jovem e descontraído possa refletir-se num aluno desleixado, relaxado e pouco empenhado.

Mas não agoiremos. 

Vai correr tudo bem. 

Força meu Amor. Tu consegues! 

A três é que é bom!



 

segunda-feira, 13 de setembro de 2021

Dos riscos necessários

Confesso ter ficado um pouco reticente quando o pequeno príncipe nos pediu um skate. Na minha cabeça choveram imagens de joelhos esfolados, braços partidos, cabeça aberta, boca ensanguentada, dentes em frangalhos… Coisas banais, vá, na vida de crianças ativas.

Já em tempos tivera um skate reciclado, de tamanho desadequado, com o qual não se entendera e que rapidamente voltou para o sítio de onde viera.
Nessa altura não consideramos ser o momento certo para lhe comprar um e, verdade seja dita, ele não voltou a falar do assunto. Até há dias.

Veio, portanto, com a conversa que gostava de ter um skate e que já sabia andar, porque na Maison Relais tem praticado.

Ora bem, se é para andar de skate, ao menos que seja num ajustado às suas capacidades e com as proteções todas, para minimizar os estragos. Até porque, como não vou conseguir que não ande naquela coisa diabólica quando está no acolhimento, ter um para praticar em casa facilita e incrementa a aprendizagem.  

E foi assim que recebeu um skate e nos mostrou que, efetivamente, já se safa relativamente bem. Ao contrário da mãe que, mal pôs um pé em cima, ia virando os dois para o ar, equilibra-se e “dá o jeito” ao corpo, de maneira graciosa e de quem já domina. Gosto de o ver.

Por muito que às vezes assuste e tenhamos receio que se magoem, devemos, enquanto pais, apoiar e incentivar a pratica de atividades ao ar livre, arrancar os nossos miúdos para o exterior e deixá-los cair – pois só assim aprenderão a se levantar.

A três é que é bom!



quinta-feira, 9 de setembro de 2021

Da perseverança e firmeza

Eu sou perentória nesta minha acusação! Os ecrãs são o inimigo número um das nossas crianças e jovens. E até de muitos adultos.

São a televisão, os computadores, as tabletes, as consolas e os telemóveis. Vale tudo. Com propostas que vão de desenhos animados e séries perfeitamente inócuos a conteúdos incitando a guerra e a destruição - despertando nas cabeças dos espectadores/jogadores o pior do ser o humano -  há para todos os gostos.

Criam uma dependência tão mas tão incontrolada, que mais parece uma droga.

E de quem é a culpa? A resposta está-me na ponta dos dedos: dos pais e cuidadores, que para terem momentos tranquilos e se furtarem às suas responsabilidades, dão a “maminha tecnológica” aos miúdos, desde tenra idade, incutindo-lhe o vício. À mingua de ideias para ocupar os filhos, e sem vontade de os aturar, dão-lhe, muitas vezes espontânea e automaticamente, os ecrãs para as mãos – pois assim não há birras.

E por essa via, graças à constante estimulação dos ecrãs, as crianças tornam-se incapazes de momentos de ócio e inatividade, sempre em busca de mais e mais, não sabendo gerir o tempo morto.

E eu não sou um exemplo neste assunto! E lamento por isso.

Quando o meu filho não queria comer a sopa – por volta dos 2 anos e pouco – para o entreter comecei a mostrar-lhe o Ruca. E funcionou. Conclusão: durante uns longos meses (2 anos?) só com a porcaria dos desenhos animados comia a sopa. E isso tornou-se um problema. Não, não podíamos permitir que os ecrãs se infiltrassem na hora da refeição. Por isso foi feito o desmame e os ecrãs proibidos à mesa.

Contudo, e porque o vício já lá estava, passou a ver televisão em horários pré-determinados e com limite de tempo. Escolhíamos criteriosamente os conteúdos e, devo reconhecer, vários foram os episódios que aproveitei para lhe “fazer a moral” sobre os assuntos mais variados. Com o crescimento passou a ver desenhos animados com vertente mais educativa - os Octonautas são um exemplo de tempo bem aproveitado à frente da televisão – e, forçosa e inevitavelmente, a jogar na consola. Temos uma Wii, que não teve (felizmente) o poder de o prender. No Natal passado, e ainda que não tivesse sido uma escolha muito consensual, acabou por receber uma Switch. E foi um erro. Não é capaz de se controlar e, se o deixasse, jogava dia e noite. Obviamente que não acontece. Mas ele gostaria. E isso enerva-me tanto que até dói.

Eu sei que esta guerra não é só minha e que outros pais se vêm a mãos com problemas de excesso de ecrã e de estupidificação dos filhos. Só há um caminho: reagir. E reagir com força e perseverança. Impor limites, controlar conteúdos e estimular as nossas crianças para fazerem outras coisas: brincar na rua, fazer desporto, aprender musica, ler, pintar, construir, destruir, experimentar. Mas nunca desistir e em momento algum ceder ao facilitismo que é dar-lhes a “maminha tecnológica” para as mãos.

A este propósito alerto que o esforço na educação deve ser conjunto e que os pais têm de seguir lado a lado na prossecução do que é melhor para os filhos, esforçando-se por serem, eles próprios, um exemplo. Tenho dito.

A três é que é bom!




quarta-feira, 8 de setembro de 2021

Dos pés sem chão

Curiosamente, e talvez por uma questão de sobrevivência – porque seria um inferno reviver continuamente certos acontecimentos da nossa vida - o nosso cérebro tem tendência a bloquear episódios traumáticos.

Só isso justifica que, quando resumi sucintamente as nossas férias, não me veio a lembrança do pior momento de toda a minha existência. Sim, aconteceu nas férias. E embora tenha a certeza que não me esquecerei desse dia, vou tentar contar o incontável (quando me refiro ao incontável, não falo propriamente do que aconteceu, mas do que senti).

Nos dias que passamos no Algarve ficamos alojados num hotel que não fosse o preço excessiva e injustificadamente caro, teria respondido às nossas expectativas. Plantado no alto da Praia da Falésia, com um mar imenso pela frente, dispõe de vastos e bem cuidados espaços exteriores e quartos relativamente ajeitados repartidos por pequenas moradias.  
Numa noite, no regresso ao nosso quarto depois de jantar, o nosso pequeno príncipe desata a correr na direção oposta a dizer que dava a volta por trás e nos encontraria logo à frente, no atalho para o nosso alojamento. Distraídos pela conversa e apanhados de surpresa, nem nos deu tempo de reagir. Continuamos a caminhar, lentamente, à espera de o ver surgir. Como não o via/ouvia e no caminho que tomou havia outras moradias que me impediam de o ter sempre debaixo de olho, o coração começou a apertar e separámo-nos: o meu marido seguiu o caminho que o nosso filho tomou e eu avancei para onde era suposto vê-lo chegar. Nada! Já a tremer e com o coração descompassado, peguei no telefone para tentar ligar ao papa, para saber se o tinha encontrado – mas não fui capaz. Não conseguia ver o que fazia, não encontrava a lista de contactos, estava desorientada. E nesse desnorteamento aparece o meu marido no atalho, sozinho, também a tentar ligar-me…

Onde é que ele está? Onde é que ele está?

Escrevo isto enquanto volto a ter o estomago remexido e um sufoco de dor no coração, ao recordar que naquele dia perdi o chão e pensei: isto não me está a acontecer. Um segundo, fração de um segundo.

Sem conseguir pensar o que fazer, desatei a correr na direção que o Matias seguiu, a gritar pelo nome dele, desorientada e louca. O meu marido seguiu outro caminho, igualmente desesperado. Nada.

Volto para o sentido do quarto e vejo-o, a correr, transpirado e assustadíssimo, solto na minha direção. Foi o abraço que me devolveu a vida. Meu Deus. Nunca tive tanto medo. Nunca me senti assim perdida.

Falhou o atalho e continuou a corrida até encontrar caminho conhecido (bem lá no extremo oposto) e regressar ao quarto. Estava tão desarmado quanto nós.

Não sei quanto tempo é que isto durou, mas no total não seriam mais de 5 minutos. Mas foram momentos eternos e de um vazio e dor tão avassaladores que a lembrança esmaga como se fosse agora.

Uma lição para a vida: não acontece só aos outros.

A três é que é bom!



terça-feira, 7 de setembro de 2021

De um novo recomeço

Ser-me-ia impossível retomar o fio da meada e contar-vos tudo o que vivemos desde a última vez que escrevi neste blog. Há meses que não partilho os nossos momentos e lamento por isso. Lamento porque a minha memória é fraca e o muito que ficou por dizer provavelmente esquecerei.

Há, contudo, episódios que estão bem presentes na minha cabeça e, alguns deles, que me atormentam um pouquinho.

Desde o início do ano que o meu pequeno príncipe tomou consciência da morte e isso tem-no afetado no seu dia a dia. Tenho a certeza que a pandemia já lhe andava a trabalhar na cabecinha, mas a queda de fevereiro, de que vos falei, acabou por despoletar  a coisa e desencadear noites de choro e medo de morrer e só na cama dos pais encontrou conforto. 

Seguiram-se receios de sufocar, receios de ataques cardíacos, receios de ossos partidos... Tudo e durante meses! A tal ponto de quase deixar de comer. Nos dias anteriores a iniciarmos as férias, pensei enlouquecer. Nunca tinha tido problemas com a alimentação. NUNCA. E de repente via-me horas à mesa, a tentar convencê-lo a comer, e a vê-lo dar voltas e voltas à comida na boca, até acabar mastigada na beira do prato. O que fazer? O que fazer?

Pus-me um limite: se as férias (que já não fazíamos desde 2019) não permitissem trazer o meu filho de volta, no regresso a casa procuraríamos ajuda especializada. 

As férias foram imensamente curtas! O que só por si diz muito sobre o quanto foram imensamente maravilhosas.

Embora o meu Matias não tenha voltado a 100%, vi-o feliz e descontraído, a aproveitar o amor dos avós e a liberdade de quem vive no campo, a brincar com crianças que partilham dos seus gostos e do seu bom coração, a superar o receio de andar de motorizada, a permitir-se viver sem o constante medo de morrer.
Nem tudo foram rosas, obviamente: abusou do ecrã, refilou por ir para a praia (porque é que todas as crianças preferem a piscina?), pedinchou porcarias em todas as oportunidades e não se alimentou convenientemente. 
Não obstante, voltamos a casa com a vontade de regressar o quanto antes para os abraços de quem gosta de nós (tal como nós gostamos deles), para o sol e para o mar. 

E como estamos de saúde? 
Fomos à pediatra fazer um check-up para o desporto e, de acordo com a médica, está bem. As questões do medo e fobias ficaram em aberto, para ver se justificam outro tipo de acompanhamento. No demais, constatou que cresceu bastante mas também que emagreceu - não só afinar a silhueta mas no sentido de perder peso. Visto que durante uns dois meses se alimentou horrivelmente, não me chocou. Mas a ele parece que sim, porque desde então voltou a comer como um grande. Que contente que estou! Ufa. Não me consigo conciliar com uma criança que não se alimenta. 

Parece-me, no fim de contas, que estamos perante um novo recomeço - a diferentes níveis, nomeadamente no voltar a escrever no blog e partilhar, para memória futura, o quanto é "dificilogratificante" ser mãe. 

A três é que é bom!