segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

Das quedas que assustam

 A primeira vez que fomos parar às urgências por causa de uma queda com a cabeça, o pequeno príncipe tinha aberto os lábios, ao capotar de um daqueles carrinhos de criança, que senta em cima e avança com o impulso dos pés. Ficamos pelo susto e pelo encosto definito à box do belo veículo, que foi substituído pelo Porsche e Bobby Car, muito mais seguros e que lhe proporcionaram infindáveis voltas e voltas ao sofá :)

A segunda vez foi no ano passado, após ter chegado a casa da escola com um colossal galo na cabeça. Apesar de ter vomitado, o médico entendeu que se deveria a alguma gastro e não à queda.

À terceira é de vez.

Estávamos ambos em casa - homeschooling - e, na terça-feira, dia 9 de fevereiro, após a aula online com a professora e tendo feito os trabalhos direitinho, saímos para ir passear o nosso Mickey. A paisagem ainda estava invernal, com um leve manto branco de neve congelada. Decidimos ir dar a grande volta, para esticar as pernas e desanuviar.

Já a uns 3 km de casa, num terreno relativamente amplo, soltei o cão para ambos brincarem, como de hábito, a correr feitos tolinhos. Foi o que sucedeu. Um corre para um lado, o outro para o outro. O meu pequenino chama o amigo de 4 patas, que, desenfreado, correu para ele, sem medir a força nem o impacto. Só vi o meu filho voar e estatelar a face direita no chão gelado. Corri para ele que se levantou de imediato, assustado, a chorar. Não contava com aquilo. Nenhum de nós. Porque estávamos os 3 meio aturdidos com o que se passou.

Prosseguimos caminho, em direção a casa. O meu menino choroso, com dor de cabeça, o cão cabisbaixo e eu preocupada. Por mais de uma vez parámos para consolar o meu principezinho que me dizia: eu não quero morrer mamã. Claro que não vais morrer amor, nunca! Não sei explicar o que lhe passou pela cabeça para achar que poderia morrer. Mas que estava muito abalado, estava. 

Já chegados a casa, e cerca de duas horas depois do sucedido, veio o primeiro vómito. Seguiu-se a sonolência e uma espécie de apatia. E a recusa de comer e beber. É claro que não houve hesitações. Partimos para as urgências pediátricas. 

A queda, a dor de cabeça, os (já) 5 vómitos, a sonolência e a lentidão nos reflexos e nas respostas levaram a médica a decidir deixá-lo em observação durante a noite. A primeira reação do meu filhote foi de choro - talvez não tivesse ouvido que a mamã ficava com ele, o que logo fiz questão de o tranquilizar. Mas depois de ter dormitado nas urgências enquanto esperávamos pelo resultado dos testes covid e por uma vaga no internamento, chegou ao quarto (eram para lá das 23h) espevitado e cheio de curiosidade. A enfermeira (como todas as pessoas que cruzamos) era muito simpática e acessível. Respondeu às suas dúvidas, enquanto colocava todos os apetrechos para que passasse a noite monitorizado. Por último, trouxe-lhe a água que ele pediu e deixou-nos para dormir, com a roupa que trazíamos no corpo - como se de tempos de guerra se tratasse. 

O meu príncipe ainda esboçou, antes de adormecer, um lindo sorriso, enquanto olhava para o dedo com uma luz vermelha, a regular a quantidade de oxigénio no sangue. 

Acordou renovado. Com as capacidades mentais normalizadas e cheio de fome. Comeu um super pequeno almoço, respondeu direitinho aos testes físicos e mentais que médicos e enfermeiros lhe fizeram e, como os seus sinais estiveram normais durante o período de observação, tivemos alta para regressar a casa ao meio da manhã.

À saída do hospital diz-me ele: sempre sonhei ter esta experiencia, de dormir uma noite no hospital. Relembrei-lhe que a sua primeira noite neste mundo foi em meio hospitalar, mas, e bem, disse-me que isso não contava porque é assim com toda a gente e porque também não se lembra. Tadinho.

Além do enorme susto e dos mimos que o Mickey nos fez quando regressamos a casa, vou lembrar deste episódio o medo que o meu filho sentiu de morrer. Como eu o compreendo. Eu também não quero morrer. Quero viver muitos anos, para o ver crescer, lindo e feliz. 

A três é que é bom! 





terça-feira, 26 de janeiro de 2021

Da responsabilização

Ao meu post anterior associei uma foto lindíssima dos meus rapazes (é assim que os vejo) e isso inspirou-me para vos contar um pouquinho do que tem sido a nossa vida desde que adotámos o Mickey - já la vai um ano e três dias 😊

Como tive a oportunidade de relatar, o cão veio parar a nossa casa a pedido do pequeno príncipe. 
É claro que nós (os pais) não colocámos objeções - até porque se assim fosse, não o teríamos adotado! Mas convenhamos que não nos teríamos metido nesta aventura se não fosse para satisfazer o seu desejo - e isto, independentemente de reconhecermos que um animal de companhia é uma mais valia na educação e crescimento das crianças.

Assim, e apesar de cientes de que o cão seria mais um encargo às nossas costas, alertámos o nosso filho que o animal seria responsabilidade sua. 

Como é que isto se passa na prática? De forma bastante simples: ocupamo-nos todos do Mickey, consoante a nossa disponibilidade, respeitando a distribuição de tarefas acordada.

Se é verdade que durante a semana é o papa quem mais se ocupa do nosso companheiro de 4 patas, ao fim de semana não dispensamos os nossos longos passeios a 3 - os três M: Matias, Mickey e mamã (esporadicamente, ao domingo, contamos com a companhia do papa).
 
Quando o tempo permite vamos pela floresta. Quando há demasiada lama, preferimos trilhos alcatroados, mas, ainda assim, maioritariamente na natureza. São vários km, numa média de 2 horas de caminhada. Que bem que nos faz. A todos!

É claro que por vezes tenho de relembrar ao meu filho de quem é o cão - para desbloquear aquela reticência em sair de casa. Para o chamar à razão. Para lhe relembrar das suas responsabilidades.
E resulta. Aceita que tem uma obrigação para com o animal, a quem chama de seu, e assume o seu papel de dono. 

Se o cão o vê como tal (como dono), é toda uma outra questão 😅 Acho que o vê como um irmão e por vezes, até, como um rival - a ver quem consegue captar mais a atenção dos pais. 
Juntos são duas crianças. Dois tolinhos. Os meus rapazes!

A três é que é bom!
(Mas a quatro somos mais avariados) 







segunda-feira, 25 de janeiro de 2021

Da liberdade

No passado fim de semana os portugueses foram chamados a eleger o seu Presidente da República para os próximos 5 anos.

Parece coisa pequenina. Mas num mundo cada vez mais povoado de indivíduos centrados no próprio umbigo, com líderes partidários a apelar ao ódio, xenofobia, racismo e outras monstruosidades, votar, além de um direito, tornou-se um dever.

E nós cumprimos o nosso. Como cidadãos, pessoas, seres humanos. Não como imbecis.

E o propósito desta conversa neste blog deve-se ao simples facto de que esta foi uma boa oportunidade para tentar explicar ao meu filhote o que é a liberdade e a democracia. 

Falei-lhe, grosso modo, do poder que cada um de nós tem de fazer as boas escolhas. De pensar pela própria cabeça e decidir em consciência. Não se deixar levar por populismos e populistas. 

Contei-lhe, ainda, que nos assiste uma obrigação de preservar esta liberdade. Não podemos permitir que se percam anos de luta. Muitos penaram para que hoje todos possamos votar. 

A dada altura perguntou-me porque é que não podia votar também. Expliquei-lhe que o direito de voto está reservado aos maiores de 18 anos, idade em que se atinge a maioridade. 

Disse-lhe, também, que as crianças não estão, ainda, plenamente desenvolvidas para entender o alcance das suas escolhas e que por isso não podem exercer o direito de sufrágio.

Argumento totalmente falso! 

Estou segura que, se o meu pequeno príncipe e tantas outras crianças de 7 anos votassem, teriam um sentido de voto mais consciente e humano que quase meio milhão de portugueses.

Viva a Liberdade. Viva a Democracia.









quarta-feira, 20 de janeiro de 2021

Do que realmente importa

A metáfora do copo meio vazio ou meio cheio diz muito sobre as pessoas e sobre a sua postura perante a vida e os desafios.

Eu poderia dizer-vos que o meu Natal foi triste e desolador porque, em mais de 4 décadas, foi a segunda vez que não passei esta quadra com os meus pais. E a culpa foi do COVID. 

Ou então, posso simplesmente dizer-vos que estamos todos de boa saúde. 
Por força da nossa atitude responsável, não nos colocamos a nós nem aos outros em situação de risco. E isso é, estarão todos de acordo, o mais importante: fazer o que está ao nosso alcance para preservar a nossa saúde e daqueles que amámos.

Posto isto - aceitando que as coisas são como são e que mais do que nos nossos pequenos caprichos pessoais devemos focar-nos na humanidade como um todo - estávamos prontos para celebrar o Natal e tudo o que ele representa: o amor, a partilha, a família. 

E soubemos aproveitar cada momentinho. Com alguns bem juntinho, com outros à distância - mas todos unidos num grande abraço dentro do coração. 

O pequeno príncipe teve a recompensa do seu trabalho traduzida nas prendas que tanto desejava. Sim, é um pouquinho de consumismo. Mas se todos trabalhamos para o salário ao fim do mês, parece-me justo que as crianças deem o seu melhor na expectativa de receberem o que mais desejam. E que feliz que ficou! Aquele sorriso rasgado vale cada cêntimo gasto. 

A título de registo, e porque não merece mais que isso, digo-vos que à meia noite de 31 de dezembro estávamos bem aconchegados em vale de lençóis. 

A três é que é bom!




segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

São Nicolau

Estou muito preocupada! Os anos estão a passar muito rápido e já começo a vislumbrar o dia em que o meu pequeno príncipe me vai olhar de frente e dizer: "tu andaste-me a enganar estes anos todos!"

É claro que já tenho a conversa toda preparadinha na minha cabeça e dir-lhe-ei, com a maior honestidade, que o Pai Natal existe, só que num registo ligeiramente diferente. Existe no coração de quem acredita. E eu, com a minha idade avançadota, acredito!

Mas a que propósito vem isto? Muito simples: fruto das circunstâncias da vida, viemos parar a um país onde quem traz os brinquedos aos meninos bem comportados é o São Nicolau, na noite de 5 para 6 de dezembro. E, naturalmente, o rebento tira proveito de ambas as tradições, a local e a portuguesa - com certeza já falei disto, em anos passados. 

Assim, a grande dúvida do meu pequenote no passado fim de semana era: será que o Kleeschen me vai trazer um brinquedo ou vou receber uma vergasta do Houseker? 

A excitação era tanta que adormeceu com os notívagos e acordou com as galinhas!

Devo dizer, em abono da mais pura das verdades, que se tem portado bem e não merecia, de todo, receber um pau na sua botinha. No entanto, eu sei que estes Senhores de Vermelho que nos visitam em dezembro têm um poder de persuasão que me escapa e por isso aproveito sempre as suas visitas para passar uns recadinhos ao meu querido e adorado filho... Vai daí, além do comboio da Lego que pediu e que o deixou extasiado de felicidade, o Kleeschen deixou-lhe um livro de boas maneiras e uma cartinha, com umas recomendaçõezinhas 😁

Dos pais recebeu uma Nerf, que desejava desde os primórdios mas que nós achávamos que ainda era cedo. Chegou o dia.

Que alegria que é, ver o brilho nos seus olhos e a felicidade estampada no rosto. 

A três é que é bom!



terça-feira, 27 de outubro de 2020

Influencers

Consta que o novo mundo está a abarrotar de "influencers", embora não haja grandes conclusões sobre a utilidade dos mesmos. Eu diria que na sua esmagadora maioria não servem para rigorosamente nada, a não ser para mostrar o quanto a sociedade está oca. 

Convenhamos que a ideia das influências não é, obviamente, nova. As designações é que mudaram, bem como o alcance. No meu tempo não havia cá destes estrangeirismos para apontar do dedo os mais seguidos mas já se dizia: "diz-me com quem andas e dir-te-ei quem és".

Posto isto, e chegando ao que aqui me trouxe - até porque reconheço a força magnética das companhias -  a única coisa que eu desejo para o meu pequeno príncipe é que saiba escolher as pessoas que o rodeiam e consiga discernir entre as boas e as más influências. 

Tendencialmente, é propenso a seguir o mau exemplo. Admira os "badboys", porque são cool e toda a gente quer brincar com eles, ao que diz. Fico podre. E sou obrigada a encarnar a mãe que faz lavagens cerebrais para lhe demonstrar que correto é respeitar o próximo, as regras (em casa e na escola), ser educado com todos e ter, essencialmente, um bom coração. 

Quando já lá não vamos com falinhas mansas, faço uso daquele truque mágico (que, receio, venha a perder o efeito daqui a alguns anos) que é: O pai Natal vê tudo o que tu fazes 😜

Este ano letivo, e ao contrário de todos os anos precedentes, não tenho nenhuma razão de queixa do seu comportamento (na escola...)! A professora avalia diariamente o comportamento dos alunos, sendo que todos começam no sol, podendo baixar progressivamente na escala para a nuvem, a chuva e a trovoada. Em quase 7 semanas de aulas terminou o dia sempre no sol. Muito bem!

Que motivações/influências tem ele para este comportamento exemplar, questionam vocês? Identifico três:

1- a sua grande vontade de agradar à professora (fica danado quando dá erros, estando decido a ser o melhor da classe);

2- a promessa dos pais de que receberá um brinquedo nas férias escolares (se ficar sempre no sol) - sim, eu sei, isto é chantagem, mas "a mother's gotta do what a mother's gotta do" 😄

3 - o amor 😊. Sim, o meu menino voltou a apaixonar-se. A colega de carteira passou de uma grande amiga a amiga especial. E se é verdade que às vezes se distrai um pouquinho nas aulas porque estão na converseta (já troquei umas impressões com a professora sobre isto), não é menos verdade que vai para a escola com outro humor e disposição. Feliz! 

Concluo com seguinte pensamento: deixemo-nos influenciar apenas por aqueles que trazem algo de positivo para a nossa vida! 💗

A três é que é bom!

                                Foto do primeiro dia de aulas: 15-09-2020




sexta-feira, 18 de setembro de 2020

Vakanz Doheem

Por causa da pandemia - que mudou os nossos hábitos de vida e que teima em nos manter nesta nova normalidade de distanciamento social e uso constante de máscara - decidimos que o melhor (o mais sensato, vá), seria não nos afastarmos muito do nosso ninho. 

Assim, as super férias do príncipe este ano foram um pouquinho menos super. Foram Vakanz Doheem. Não, não vamos traduzir à letra por férias em casa, outrossim: vá para fora cá dentro (como o slogan bem português).

Para começar, conseguimos convencer os avós a virem passar as férias grandes connosco, protegendo o nosso rebento da convivência alargada nas estruturas de acolhimento. Durante mais de 2 meses, o meu pequenote aproveitou - umas vezes com mais outras com menos entusiasmo - a presença constante dos avós, com quem já não estava desde janeiro. E foi tão bom que na hora da despedida (regressaram a Portugal quando a escola recomeçou) chorou baba e ranho durante minutos intermináveis, soluçando e redobrando o choro, com a saudade a esganar-lhe o pescoço. 

Os dias que mais se assemelharam a verdadeiras férias foram partilhados também com a mamã (o pai decidiu adiar os seus dias de repouso para futuras férias escolares). 

Portanto, durante as primeiras 3 semanas de agosto (com temperaturas historicamente elevadas) aproveitamos da melhor maneira o que a nossa casa e a nossa região nos oferece: 
- muitos passeios na montanha - sempre acompanhados pelo nosso Mickey -, ora a pé, ora de trotinete, ora de bicicleta; 
- "mergulhos" na micro piscina; 
- visitas aos primos no norte, com direito a pernoitar; 
- fomos ver, alimentar e dar mimos aos animais no Parc Merveilleux; 
- explorar a fauna e a flora em Haff Réimech;
- apreciar os comboios antigos no Fond de Gras;
- ver a barragem e o rio circundante em Boulaide; 
- fizemos piqueniques;
- colhemos flores; 
- comemos muitos gelados; 
- bebemos muitos Ice Tee... 
Programas simples mas dias prazerosos. 

O ponto alto - literalmente - das férias do meu filhote foi a sua primeira experiencia de voo na Luxfly. Fica para a história o seu comentário ao sair da câmara de voo: "J'ai eu la peur de ma vie!" - achei tão adorável a sua expressão que não pude conter o riso ao ouvi-lo. Jamais um riso de maldade, mas de adoração pelo primeiro pico de adrenalina e pela coragem em experimentar. Ainda no carro, estava pendurado no puxador por cima da porta. Pergunto: "Então? Estás bem? Ainda não sinto bem as pernas". 😍 Que descarga! 💣💥

Estes dias passaram muito rápido e deixaram saudades. 

Não, não soube às férias de praia e mar, mas fomos conscientes e responsáveis. Fizemos a nossa parte.

A três é que é bom!